Muros altos, cercas
elétricas, guaritas elevadas, quarteirões desertos. Em Fortaleza, violência e
arquitetura se influenciam mutuamente numa relação que transforma nossa paisagem
urbana. “As grades do
condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que
está nessa prisão”. Marcelo Yuka
Entre a rua e a sala de
estar contam-se quatro grades e seis cadeados. Esta é a fortaleza, que se
confunde com a residência da dona de casa Rita de Cássia Menezes, 64. Há sete
anos, ela transferiu o endereço do bairro Dionísio Torres para a Cidade dos
Funcionários, com a promessa de “uma região mais segura”. “Aqui era conhecido
como um dos bairros mais calmos de Fortaleza. A gente sentava na calçada até a
hora do sereno, esperava os meninos chegarem da escola de ônibus, conversava
mais com os vizinhos. Hoje mudou muito”.
Menos de uma década depois da mudança, entrar na casa
de dona Rita exige transpor os muitos níveis que separam a calçada do interior
da residência. “Toda semana você fica sabendo de alguém que perdeu o celular ou
levaram a bolsa. É um arrombamento aqui, um assalto ali, ninguém pode mais
sair. A solução foi a gente se prender feito passarinho em casa”, responde.
A sensação de insegurança do fortalezense é
perceptível. Guaritas elevadas, cercas elétricas, seguranças particulares e
câmeras representam a mudança na arquitetura e na paisagem urbana da Cidade. No
bairro Parque Manibura, a empresária Teresa Fátima de Carvalho, 43, decidiu
elevar os muros de casa para evitar a entrada de ladrões. A soma chega a dois
assaltos e uma tentativa de arrombamento apenas nestes primeiros meses de 2013.
“Levantar os muros, instalar as câmeras e a cerca elétrica só aumentam nosso
isolamento, mas tem muito terreno baldio em volta da casa e foi a solução
encontrada para nos sentirmos mais tranquilos”, defende.
Segurança de uns, insegurança de outros. A advogada
Roseli de Carvalho, 32, que prefere deixar o carro na garagem quando precisa percorrer
distâncias curtas, notou que a rua onde mora perdeu muito de seu fluxo de
pedestres. Um condomínio construído de fundos para a via acabou “matando” a
rua. “Todos esses condomínios fazem isso. Os muros são altíssimos e, como
ocupam um quarteirão inteiro, eles ‘matam’ as ruas de trás. Eles se protegem,
mas desprotegem quem anda na rua”, analisa.
De acordo com o assessor de planejamento da
Universidade de Fortaleza (Unifor), arquiteto Euler Muniz, a relação entre
violência e paisagem arquitetônica atua nas duas direções. Seria a violência
responsável por alterar a arquitetura ou é a arquitetura que gera a violência?
Para ele, intervir na estrutura das casas e condomínios para diminuir a
sensação de insegurança é uma solução utópica. “A violência é um sintoma e você
tem uma série de outras causas para sua geração, como falta de escolaridade e oportunidades de emprego, mas sem dúvida o modo
como utilizamos o espaço público favorece esse cenário”, diz.
Com isso, o aumento na utilização de espaços privados,
como os shoppings centers, tem levado ao esvaziamento das áreas públicas. “Note
que os shoppings estão sempre cheios enquanto praças, parques públicos e
passeios estão esvaziados. É preciso trabalhar em conjunto para se ter uma polícia mais
presente, o incentivo dos órgãos públicos para a ocupação destes espaços e uma
disposição maior da população. Se não há pessoas nas ruas, você facilita a
oportunidade do criminoso. A não ocupação produz ou acentua essa criminalidade
e o desenho urbano induz a isso”.
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