Segundo dados da STDS, a média anual de menores de 18 anos localizados decresceu de forma significativa
Desde 2006, o número de crianças e adolescentes desaparecidos cresceu acentuadamente na Capital, embora o total de denúncias tenha se mantido estável. Segundo informações da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social do Estado (STDS), de dezembro de 2006 a novembro de 2010, a quantidade de menores de 18 anos nessa situação saltou de 10 para 72. Mais que agravamento da violência urbana, os dados evidenciam a degradação de ambientes familiares que, ao invés de oferecerem conforto, alimentam o desejo de abandonar as moradias, mesmo que o destino seja as ruas. Enquanto isso, cresce a demanda por um lar por parte de crianças abandonadas.
Associada ao aumento do número de desaparecidos, a média de crianças localizadas decresceu, passando de 122, em 2006, para 58, de janeiro a novembro de 2010. Ao longo dos últimos cinco anos, a quantidade de denúncias relacionadas a desaparecimentos sofreu poucas alterações, girando em torno de 130 solicitações anuais.
De acordo com a coordenadora do Centro de Referência Regional Especializada em Assistência Social (Creas) Regiana Nogueira, os maiores responsáveis pelos desaparecimentos não são raptos ou sequestros, mas sim conflitos familiares que geram insatisfação em crianças e adolescentes a ponto de eles decidirem deixar a residência.
Entre as principais circunstâncias que levam ao ato de abandonar o próprio lar, a coordenadora cita a existência de maus-tratos, de relacionamentos amorosos não aceitos pelos pais e de envolvimentos com traficantes, os quais não raramente aliciam os mais jovens para utilizá-los na comercialização de drogas.
A problemática, ressalta, não é observada apenas entre famílias de baixa renda. "Conflitos familiares não são exclusividade delas, ocorrem em todas as classes sociais. Existem, por exemplo, os altos executivos que não são capazes de atender a demanda por atenção dos filhos", ilustra.
Uma vez fora de casa, os jovens tendem a recorrer a pessoas de confiança fora do ambiente familiar. De acordo com a delegada titular da Delegacia de Combate aos Crimes de Exploração da Criança e do Adolescente (Dececa), Ivana Timbó, é nas casas de amigos ou namorados que costuma ser encontrada a maioria dos adolescentes desaparecidos. A maior parte, destaca, é do sexo feminino.
Em muitos casos, diz a delegada, os jovens oferecem resistência à ação da Dececa, inconformados com a ideia de retornar à casa. Em situações do gênero, são encaminhados aos Creas, para que possam contar com o acompanhamento de psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais.
Em relação à queda no índice de localização das crianças, Ivana Timbó afirmou que preferia não se manifestar a respeito dos dados fornecidos pela STDS. A delegada disse, também, não saber se as informações apresentavam os mesmos dados registrados pela Dececa. Ivana informou, ainda, que não poderia, até o fechamento da matéria, fornecer os números registrados pela delegacia.
Divergentes
Segundo Regiana Nogueira, é possível que os números das duas entidades sejam divergentes. "Há casos de famílias que atendemos e que orientamos a irem às delegacias, mas elas não vão. E vice-versa. Então, é possível que eles tenham números de pessoas localizadas que nós não temos", justifica.
Segundo a coordenadora, o funcionamento do Cadastro Nacional de crianças desaparecidas poderia amenizar a problemática. "Mas, além de funcionar, esse cadastro teria também de ser divulgado para dar mesmo resultado" ressalta.
EM BUSCA DE LAR
19 crianças esperam adoção no Tia Júlia
Ao mesmo tempo em que dezenas de crianças e adolescentes abandonam as casas e rejeitam o convívio com parentes, outros têm como maior desejo encontrar uma família e um lar. Embora vivenciando situações aparentemente inversas, os dois grupos compartilham a ânsia por afetividade e por uma nova realidade.
Uma das unidades que trabalham com adoção, a Casa de Acolhimento Institucional Tia Júlia, comporta uma média de 80 crianças, adolescentes e jovens com mais de 18 anos. Na teoria, o equipamento deveria abrigar crianças de até sete anos. Contudo, como muitos daqueles que são acolhidos são portadores de deficiências físicas, vários acabam permanecendo no local por mais anos, já que o espaço - em estrutura física e diversidade de profissionais - é mais indicado para o acolhimento. Hoje, o mais velho entre os atendidos é um rapaz de 22 anos, com paralisia cerebral.
Das 80 crianças, 19 estão na fila por adoção. Segundo a STDS, a Casa Abrigo, que trabalha com adoções, possui 16 meninos que passam por processo de destituição familiar - etapa necessária ao ingresso na fila. De acordo com a assistente social Ana Paula Miranda, que atua no Tia Júlia, o primeiro esforço do equipamento, após a chegada de uma nova criança, é tentar restabelecer o vínculo dela com sua família. Apenas quando não é possível o retorno é iniciado o processo que deve inseri-la na fila de espera por adoção.
A demanda por ambientes familiares, afirma a assistente social, aumentou nos últimos anos. Um dos fatores que contribui para o fato é o uso de drogas, como o crack, pelos pais. "O que nós precisamos é de prevenção, de políticas públicas para o enfrentamento das drogas", frisa. Em 2010, 31 novas crianças chegaram à unidade. No mesmo ano, dez foram adotadas e outras sete voltaram ao convívio com familiares. "Sempre chegam mais do que saem", diz.
JOÃO MOURA
ESPECIAL PARA CIDADE
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