No Ceará, a prática do jogo do bicho, apesar de a Polícia ter parado suas atividades em 2008 continua ganhando força
O historiador e escritor Luís da Câmara Cascudo, em seu dicionário do folclore brasileiro, distinguiu o jogo do bicho como sendo “invencível” e via a repressão a ele, servir apenas para ampliar sua reprodução por todo o País e multiplicar sua clandestinidade. Em Fortaleza e Região Metropolitana, as considerações do escritor potiguar parecem estar sendo seguidas.
Passados um ano e seis meses da operação policial “Arca de Noé”, comandada pela Polícia Federal e que culminou com a prisão dos dirigentes da Organização Paratodos, principal bancadora do jogo do bicho em atividade no Estado, há mais de 30 anos, eis que agora esse tipo de atividade volta a ganhar força no Ceará.
Nos bairros, no Centro da cidade, em Maracanaú e Caucaia, entre outros locais, não faltam aquelas “banquinhas” tradicionais em que os cambistas fazem o jogo dos apostadores. “A fezinha” pode ser feita durante todo o dia e com opção até de agência oriunda do Estado da Paraíba.
Nas ruas
Na segunda e terça-feira da semana passada, a reportagem conseguiu encontrar bancas de jogo nas ruas 25 de Março, Liberato Barroso, Tristão Gonçalves e na Avenida Imperador, todas no Centro, além de cambistas trabalhando nos bairros de Antônio Bezerra, Quintino Cunha e São Gerardo, numa pequena amostragem da expansão desta atividade que é considerada ilícita pelo Código Penal Brasileiro. A hierarquia no jogo do bicho é formada por banqueiros, gerentes e apostadores; nessa ordem, o “banqueiro” é quem banca o jogo e quem paga a banca.
O “gerente de banca” ou do ponto, é quem repassa as apostas ao banqueiro e o prêmio ao vendedor. O vendedor é agregado ao gerente de banca e é quem escreve e quem intermedeia o pagamento entre o apostador e o gerente.
Alguns cambistas, mesmo na condição de ficarem no anonimato, pouco falaram sobre a volta do jogo do bicho. Adiantaram, entretanto, alguns detalhes da operação. Eles garantem que o cliente não perde. Após o sorteio, o prêmio é pago aos ganhadores pelo próprio executor do jogo.
“Nossas apostas são recolhidas por um funcionário que tanto leva o quantitativo apostado e as pules, quanto traz as quantias que serão pagas pelas apostas ganhadoras. “Nós fazemos o que o apostador desejar, se quer preencher na pule, ou na maquininha”, disseram.
Um cambista que atua no Centro afirma que trabalha também com as apostas da “Matinal”, empresa bancadora da Paraíba. “Só tem uma extração, no fim da manhã, e o resultado do sorteio vem por fax ou e-mail”, explicou o trabalhador.
Com relação a quem seria o bicheiro responsável por estar bancando de novo o jogo do bicho, ele afirmou que alguns ex-integrantes do Banco Paratodos estão por trás da operação, agora agindo de forma desconcentrada de gerenciamento.
Sobre a proibição da atividade, os cambistas sabem da clandestinidade, mas afirmam que é a única maneira que encontraram de ajudar no sustento de suas famílias.
Entenda o caso
Em 2001
O jogo do bicho no Ceará começou a ser investigado, mas após paralisação nos trabalhos devido à urgência em outras operações, foi retomado em 2007. A delegada Federal do Ceará, Ana Cláudia Santana Diniz apresentou relatório e indiciou oito bicheiros, um subtenente da reserva do Corpo de Bombeiros, e o superintendente-adjunto da Polícia Civil por sonegação fiscal, crime contra a administração pública, crime contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro e contravenção penal.
9/10/ 2008
O Juiz Danilo Fontenelle, da 11ª Vara Federal, determinou a operação “Arca de Noé”. Uma ação que resultou na prisão de Francisco Mororó, presidente do Organização Paratodos Ltda, seis sócios e uma gerente do jogo do bicho em Fortaleza, assim como o fechamento da própria sede da Paratodos Ltda. Decorrente da operação, o Ministério Público Estadual denunciou 15 pessoas ligadas à organização.
No dia 10/10/2008
Após tomar depoimentos, sete dos dez presos são liberados pela Justiça Federal e os bicheiros que se encontravam foragidos se apresentam para depor.
13/11/2009
A Justiça Federal no Ceará determinou que a sede da Organização Paratodos, situada na Av. Tristão Gonçalves, 123, fosse a leilão nos dias 26 de novembro e 3 de dezembro.
26/11/2009
Não foi registrado nenhum lance no leilão inicial da sede da Organização Paratodos.
3 /12/2009
No segundo leilão, também não aconteceu qualquer lance.
24/03/2010
A Superintendência Regional do Trabalho no Ceará foi nomeada pela Justiça Federal como a Fiel Depositária do Edifício Mororó, prédio do Banco Paratodos.
No dia 31/03/2010
A antiga sede da Organização Paratodos, situada no Centro da cidade foi entregue pela Justiça Federal no Estado para a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Estado do Ceará.
CONTRAVENÇÃO
Polícia Civil só age sobre denúncia
Este tipo de contravenção penal não é atribuição da Polícia Federal, (PF), explica a assessoria de comunicação do órgão no Ceará. Segundo a entidade, a operação “Arca de Noé”, realizada pela PF em 2008, se deu em razão do grupo da organização Paratodos estar envolvido com o crime de lavagem de dinheiro.
Já a Polícia Civil do Estado, através de seu Departamento de Polícia Metropolitana, segundo sua assessoria de imprensa, afirma que o órgão age sobre denúncia feita. Quando dispõe de denúncia formulada, parte para executar o trabalho de investigação e toma as medidas que o caso requer, de conformidade com o que determina o artigo 58 da lei de contravenção penal.
Assessoria informou também que recentemente após receber denúncia da existência do jogo do bicho na Cidade dos Funcionários lá compareceu, apreendeu material usado para efetuar apostas, fechou os estabelecimentos infratores, detendo as pessoas envolvidas e desarticulou o esquema dos bicheiros.
O historiador e escritor Luís da Câmara Cascudo, em seu dicionário do folclore brasileiro, distinguiu o jogo do bicho como sendo “invencível” e via a repressão a ele, servir apenas para ampliar sua reprodução por todo o País e multiplicar sua clandestinidade. Em Fortaleza e Região Metropolitana, as considerações do escritor potiguar parecem estar sendo seguidas.
Passados um ano e seis meses da operação policial “Arca de Noé”, comandada pela Polícia Federal e que culminou com a prisão dos dirigentes da Organização Paratodos, principal bancadora do jogo do bicho em atividade no Estado, há mais de 30 anos, eis que agora esse tipo de atividade volta a ganhar força no Ceará.
Nos bairros, no Centro da cidade, em Maracanaú e Caucaia, entre outros locais, não faltam aquelas “banquinhas” tradicionais em que os cambistas fazem o jogo dos apostadores. “A fezinha” pode ser feita durante todo o dia e com opção até de agência oriunda do Estado da Paraíba.
Nas ruas
Na segunda e terça-feira da semana passada, a reportagem conseguiu encontrar bancas de jogo nas ruas 25 de Março, Liberato Barroso, Tristão Gonçalves e na Avenida Imperador, todas no Centro, além de cambistas trabalhando nos bairros de Antônio Bezerra, Quintino Cunha e São Gerardo, numa pequena amostragem da expansão desta atividade que é considerada ilícita pelo Código Penal Brasileiro. A hierarquia no jogo do bicho é formada por banqueiros, gerentes e apostadores; nessa ordem, o “banqueiro” é quem banca o jogo e quem paga a banca.
O “gerente de banca” ou do ponto, é quem repassa as apostas ao banqueiro e o prêmio ao vendedor. O vendedor é agregado ao gerente de banca e é quem escreve e quem intermedeia o pagamento entre o apostador e o gerente.
Alguns cambistas, mesmo na condição de ficarem no anonimato, pouco falaram sobre a volta do jogo do bicho. Adiantaram, entretanto, alguns detalhes da operação. Eles garantem que o cliente não perde. Após o sorteio, o prêmio é pago aos ganhadores pelo próprio executor do jogo.
“Nossas apostas são recolhidas por um funcionário que tanto leva o quantitativo apostado e as pules, quanto traz as quantias que serão pagas pelas apostas ganhadoras. “Nós fazemos o que o apostador desejar, se quer preencher na pule, ou na maquininha”, disseram.
Um cambista que atua no Centro afirma que trabalha também com as apostas da “Matinal”, empresa bancadora da Paraíba. “Só tem uma extração, no fim da manhã, e o resultado do sorteio vem por fax ou e-mail”, explicou o trabalhador.
Com relação a quem seria o bicheiro responsável por estar bancando de novo o jogo do bicho, ele afirmou que alguns ex-integrantes do Banco Paratodos estão por trás da operação, agora agindo de forma desconcentrada de gerenciamento.
Sobre a proibição da atividade, os cambistas sabem da clandestinidade, mas afirmam que é a única maneira que encontraram de ajudar no sustento de suas famílias.
Entenda o caso
Em 2001
O jogo do bicho no Ceará começou a ser investigado, mas após paralisação nos trabalhos devido à urgência em outras operações, foi retomado em 2007. A delegada Federal do Ceará, Ana Cláudia Santana Diniz apresentou relatório e indiciou oito bicheiros, um subtenente da reserva do Corpo de Bombeiros, e o superintendente-adjunto da Polícia Civil por sonegação fiscal, crime contra a administração pública, crime contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro e contravenção penal.
9/10/ 2008
O Juiz Danilo Fontenelle, da 11ª Vara Federal, determinou a operação “Arca de Noé”. Uma ação que resultou na prisão de Francisco Mororó, presidente do Organização Paratodos Ltda, seis sócios e uma gerente do jogo do bicho em Fortaleza, assim como o fechamento da própria sede da Paratodos Ltda. Decorrente da operação, o Ministério Público Estadual denunciou 15 pessoas ligadas à organização.
No dia 10/10/2008
Após tomar depoimentos, sete dos dez presos são liberados pela Justiça Federal e os bicheiros que se encontravam foragidos se apresentam para depor.
13/11/2009
A Justiça Federal no Ceará determinou que a sede da Organização Paratodos, situada na Av. Tristão Gonçalves, 123, fosse a leilão nos dias 26 de novembro e 3 de dezembro.
26/11/2009
Não foi registrado nenhum lance no leilão inicial da sede da Organização Paratodos.
3 /12/2009
No segundo leilão, também não aconteceu qualquer lance.
24/03/2010
A Superintendência Regional do Trabalho no Ceará foi nomeada pela Justiça Federal como a Fiel Depositária do Edifício Mororó, prédio do Banco Paratodos.
No dia 31/03/2010
A antiga sede da Organização Paratodos, situada no Centro da cidade foi entregue pela Justiça Federal no Estado para a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Estado do Ceará.
CONTRAVENÇÃO
Polícia Civil só age sobre denúncia
Este tipo de contravenção penal não é atribuição da Polícia Federal, (PF), explica a assessoria de comunicação do órgão no Ceará. Segundo a entidade, a operação “Arca de Noé”, realizada pela PF em 2008, se deu em razão do grupo da organização Paratodos estar envolvido com o crime de lavagem de dinheiro.
Já a Polícia Civil do Estado, através de seu Departamento de Polícia Metropolitana, segundo sua assessoria de imprensa, afirma que o órgão age sobre denúncia feita. Quando dispõe de denúncia formulada, parte para executar o trabalho de investigação e toma as medidas que o caso requer, de conformidade com o que determina o artigo 58 da lei de contravenção penal.
Assessoria informou também que recentemente após receber denúncia da existência do jogo do bicho na Cidade dos Funcionários lá compareceu, apreendeu material usado para efetuar apostas, fechou os estabelecimentos infratores, detendo as pessoas envolvidas e desarticulou o esquema dos bicheiros.
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