13 de março de 2010

Estaleiro: o que a experiência de PE pode mostrar ao Ceará

Ao contrário do Ceará, estaleiro pernambucano foi planejado há 40 anos e construído longe da área urbana

Ipojuca (PE) Um empreendimento que, há cinco anos, competia no mercado ainda como "virtual", gerando ainda ceticismo de várias partes, lança ao mar, até o fim deste mês, a sua primeira cria: um gigante Suezmax, embarcação com 274 metros e capacidade para transportar 1 milhão de barris de petróleo. Hoje, o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), localizado no município pernambucano de Ipojuca, já é realidade, e traz consigo dois trunfos: o de ser a maior fábrica de navios em seu hemisfério e, além disso, ser o marco da descentralização da indústria naval no Brasil, até então concentrada no Rio de Janeiro.
Por conta dessa história de sucesso, ele atrai, mais do que nunca, as atenções de lideranças políticas e industriais cearenses. O motivo disso é traçar um paralelo entre o que acontece por lá e o que poderia ocorrer aqui, caso o Promar Ceará, novo projeto de estaleiro cearense, seja, de fato, concretizado. O Diário do Nordeste foi, então, até Pernambuco para conferir.

Origem virtual
Assim como o cearense, o Estaleiro Atlântico Sul (EAS) surgiu como virtual (ou seja, venceu licitação para construção de navios antes de ser construído), mas foi concebido após um longo planejamento, que já reservava toda uma região para receber o empreendimento.
O empreendimento pernambucano já era pensado há, pelo menos, 40 anos, e esta pode ser a principal diferença entre os dois projetos, influindo, diretamente, nos impactos que esta indústria vem a trazer ao local onde é instalada.
O EAS está encravado em uma área de 162 hectares no Complexo Industrial de Suape (o equivalente a 400 campos de futebol), longe da área urbana da cidade e onde próxima está apenas uma comunidade de cerca de 52 famílias. Já o Promar Ceará prevê sua localização dentro da capital do Estado, em meio à vida urbana.
Por não contar com uma área do tamanho e com as mesmas condições favoráveis de geografia encontrada em Ipojuca, município a 57 quilômetros de Recife, o projeto de estaleiro cearense não tem as mesmas possibilidades de expansão que tem o pernambucano, e ainda exigirá uma diferente engenharia para dotar a enseada do Mucuripe da infraestrutura necessária para um estaleiro, como aterramento na praia, coisa que não ocorreu por lá. O Promar aguarda resultado de licitação da Transpetro para se tornar real, se vencer o certame.

Impactos
Contudo, apesar dessas diferenças, os impactos econômicos claramente gerados especialmente na região metropolitana de Recife (RMR) seriam, resguardadas as devidas proporções, também sentidos por aqui. O fato concreto que confirma tal afirmação é a criação de milhares de empregos. No EAS, são cerca de 4,5 mil diretos. No Promar Ceará, 1,2 mil. Isso sem contar com postos indiretos que surgem em decorrência do empreendimento. Em Pernambuco, prevê-se, no pico das atividades do estaleiro, 20 mil. Deste total de postos diretos, um porcentual de cerca de 80% é formado por trabalhadores pernambucanos, em especial os moradores de cinco municípios no entorno do complexo industrial: Ipojuca, Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão, Moreno e Escada. Como não havia por lá uma mão-de-obra preparada para este tipo de atividade no Estado, o consórcio empresarial que forma o EAS investe, de 2007 até o final deste ano, aproximadamente R$ 12 milhões em capacitação, que é realizada de forma gratuita aos aprendizes. É exatamente a promessa dessa geração de emprego o argumento mais forte que vem sendo trabalhado para justificar a importância da vinda do estaleiro Promar Ceará.
Inserido em um dos bairros mais pobres da Capital, o novo estaleiro poderia ser a esperança de ingresso no mercado de trabalho formal a centenas de jovens e adultos do Serviluz, além de outros bairros da cidade, podendo as possibilidades até transporem as barreiras de Fortaleza.

Mão-de-obra
Apesar de ainda não apresentado formalmente, um projeto de formação de mão-de-obra, nos moldes do que ocorre em Ipojuca, também seria construído em Fortaleza. A PJMR - empresa de participação acionária e gerenciamento de empreendimentos na área de construção naval e offshore -, que concebeu o virtual Promar Ceará, é a mesma que iniciou o projeto do EAS. Ela, segundo já afirmado por seus diretores, tem em seus planos realizar o mesmo trabalho de formação em Fortaleza, até pela falta de pessoal qualificado no mercado.

Polêmica
Logo após a definição da enseada do Mucuripe como local escolhido para novo estaleiro cearense, uma enxurrada de críticas e defesas vêm sendo feitas ao projeto. Apesar de estar inserido em contexto diferente, a experiência do EAS, empreendimento nordestino e exemplo da retomada da indústria naval no País, é importante para se compreender como um estaleiro de grande porte pode mexer com a realidade em seu entorno.


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