13 de março de 2012

Fim de uma era: A queda do ´Todo poderoso´

Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF após 23 anos no poder; ele também deixa o Comitê Organizador Local da Copa-2014.
Chegou ao fim o reinado de Ricardo Teixeira à frente da CBF. Alvo de diversas denúncias de corrupção, o dirigente apresentou ontem a carta de renúncia à presidência da entidade. Teixeira também deixou o cargo de chefia no Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014. Ambas as funções serão exercidas agora por José Maria Marin, o vice-presidente mais idoso da CBF, que leu a carta de renúncia de Teixeira. O agora ex-"todo poderoso" do futebol brasileiro diz que vai cuidar da saúde e ficar com sua família, mas se coloca à disposição para continuar colaborando com o futebol brasileiro. Já o novo presidente da CBF e do COL, por sua vez, diz que vai manter a entidade como foi deixada pelo antecessor. Ao ler a carta de renúncia de Teixeira, Marin comentou que a gestão é "de continuidade", apesar de os diretores terem deixado os cargos à disposição. "Imediatamente mencionei a todos que não se trata de uma nova gestão, mas só um novo presidente", disse Marin.

Histórico

Ex-genro de João Havelange, que comandou a CBD (que viria a se tornar CBF) entre 1956 e 1974 e a Fifa daquele ano até 1998, Teixeira se espelhou em Havelange no gosto pela permanência no poder e se reelegeu por quatro vezes consecutivas. Pouco tempo atrás, Teixeira era nome certo para disputar a sucessão do presidente Joseph Blatter na Fifa, em 2015. Sua situação, no entanto, piorou quando teria apoiado nos bastidores a candidatura do catariano Mohamed bin Hammam nas eleições do ano passado. Hammam desistiu da candidatura pouco tempo depois por conta de denúncias de corrup-ção, mas a suposta traição teria abalado suas relações com Blatter, que disse ver Michel Platini, atual presidente da Fifa, como seu sucessor ideal. No período em que Teixeira esteve à frente da CBF, o Brasil disputou seis Copas do Mundo e conquistou duas, em 1994 e 2002. A alternância entre fracassos e bons desempenhos dentro de campo ocorreu simultaneamente a uma série de denúncias contra o dirigente. O primeiro grande momento de turbulência ocorreu no início dos anos 2000, quando foi acusado de lavagem de dinheiro, apropriação indébita, sonegação de impostos e evasão de divisas no relatório da CPI do Futebol. No entanto, Teixeira não foi condenado pela Justiça e seguiu à frente da CBF. Mesmo sendo o principal nome da organização da Copa de 2014, comandando o COL, Teixeira se enfraqueceu nos últimos meses pelo aumento das denúncias envolvendo seu nome. Em 2010, o nome do presidente da CBF foi vinculado a um escândalo de corrupção envolvendo o pagamento de propinas da empresa de marketing ISL à Fifa. O caso está sob segredo de justiça na Suíça, mas pode ter os seus documentos revelados nos próximos meses. Segundo a rede britânica "BBC", dois dos dirigentes que receberam propina foram Ricardo Teixeira e João Havelange, que negam participação no caso. A última delas, feita pelo jornal "Folha de S. Paulo", afirma que o dirigente recebeu cheques nominais de uma empresa acusada de superfaturar o amistoso Brasil x Portugal, disputado em 2008. Essa mesma firma teria sido registrada em um endereço de propriedade de Teixeira.

"Câncer"

Desafeto do dirigente, o ex-jogador e deputado federal Romário celebrou a renúncia de Teixeira. Em sua página no Facebook, o baixinho disse que é preciso comemorar a saída de "um câncer do futebol brasileiro". "Espero que o novo presidente Marin, o que furtou a medalha do jogador do Corinthians na Copa São Paulo de Juniores, não faça daquele ato uma constante na Confederação. Senão, teremos que exterminar a Aids também", atacou o ex-jogador. A imprensa mundial deu amplo destaque à renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF e do COL. O site da "BBC" destacou a notícia, citando acusações contra o dirigente, mas ressaltando que ele nunca foi condenado. O britânico "The Guardian", o jornal americano "Washington Post", a revista "Sports Illustrated" - do mesmo país - e o periódico espanhol "Marca" também destacaram o fato.

Marin é lembrado por pegar medalha

Com a renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF, José Maria Marin é o novo comandante da entidade máxima do futebol nacional. Ele assume o cargo por ser o vice-presidente mais idoso do órgão. Aos 79 anos, Marin tem um currículo ligado ao esporte e à política. Nos últimos tempos, porém, seu nome só voltou ao noticiário graças a uma polêmica durante a premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior deste ano, na qual foi visto embolsando uma medalha que seria destinada ao Corinthians, campeão do torneio. Na ocasião, ele disse que o objeto foi cortesia da Federação Paulista de Futebol (FPF). Sua carreira política começou nos anos 1960, quando foi vereador de São Paulo. Na década seguinte, se elegeu deputado estadual pelo partido da Arena. Em 1979, Marin foi eleito vice-governador de São Paulo na chapa encabeçada por Paulo Maluf, e foi governador por cerca de um ano quando Maluf se licenciou. A ligação de Marin com o esporte se estreitou quando ele virou presidente da FPF, entre 1982 e 1988. Na Copa do México, em 1986, oi chefe de delegação da Seleção Brasileira. Devido a sua forte ligação com a FPF, muitos presidentes de federação temem o fortalecimento paulista na CBF.

Saída de Teixeira não surpreende Carmélio

Para os dirigentes cearenses, a ausência de Ricardo Teixeira do comando do futebol nacional não irá prejudicar na continuidade da organização da Copa de 2014. Tampouco deverá haver mudança de curso nos rumos do futebol dentro do País. "Quanto à administração do futebol brasileiro acredito que não haverá problema. O Marin saberá dar continuidade ao trabalho que foi iniciado por Teixeira", afirmou o presidente da Federação Cearense de Futebol, Mauro Carmélio, acrescentando que não foi pego de surpresa pelo anuncio da renuncia. "Ele está doente, precisa recuperar-se, além disso, também precisa se dedicar mais a sua família. Quem conhece os bastidores do futebol sabia que, mais cedo ou mais tarde, isso ia acontecer", complementou.
Para o titular da Secretaria Especial da Copa, Ferruccio Feitosa, a saída de Teixeira não abala em nada a organização da Copa no Brasil. "Existem muitas pessoas sérias que estão trabalhando em prol da realização da Copa no Brasil e isso (a renuncia) não irá atrapalhar".

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