Com esta postagem chegamos ao número redondo de 100. Hoje, graças aos internautas estamos perto de bater os 10.000 acessos. Para um blog de natureza específica, ainda mais voltado para a história local, é um número para se comemorar. Para marcar esta conquista, brindamos os leitores com um depoimento do Sr. Orion Meneses, ainda vivo na nossa comunidade, que fala com a autoridade de quem presenciou o fato, a versão sobre o surgimento das facções políticas ligadas às famílias Aguiar e Coelho de Camocim que, por muito tempo se dividiram em "Cara Preta" e "Fundo Mole". Os apelidos nasceram das características dos seus líde
res, segundo contam, das pintas pretas do rosto de Murilo Aguiar e as calças de fundo mole de Alfredo Coelho. Agora, sobre os motivos da divisão política, quem conta é o Sr. Orion Meneses, em entrevista ao historiador Carlos Manuel do Nascimento em seu trabalho sobre asamplificadoras em Camocim. Leiamos:
(Texto do blog Camocim pote de histórias)
"Durante a campanha para prefeito deCamocim, em 1950, foi realizado um comício na Amplificadora Pinto Martins, onde estavam presentes os líderes e opositores da política local, Murilo Rocha Aguiar e Alfredo Coelho. No desenrolar dos acontecimentos, os líderes políticos acabaram desentendendo-se e provocando certo tumulto na Praça Pinto Martins, acirrando a disputa pela Prefeitura Municipal. O Sr. Orion Meneses narra o fato:
A disputa política foi o seguinte, isso eu sei contar bem direitim: o Alfredo Coelho era compadre do Murilo Aguiar, (...) eles eram muito amigos, todos dois comerciantes do alto comércio aqui de Camocim, Alfredo Othon Coelho e Murilo Rocha Aguiar, já veio do Vicente Aguiar que começou o comércio. (...) aí veio a política, o Alfredo Coelho era da UDN e o Murilo do PSD, aí eu sei que o Murilo ficou arrepiado com o compadre que era o Alfredo Coelho, aí o Alfredo lançou a candidatura de João Colares Filho pra prefeito de Camocim. (...) Pois bom, aí o resultado foi que eu estava lá no comício quando o Sr. Murilo foi falar, aí eles não deixaram o Murilo Aguiar falar, eles tomaram o microfone; aí quando botaram pro João Colares Filho, o Pascoal puxou pelo canivete e cortou o fio do microfone, foi uma confusão danada e o povo estava era aí, com a língua horrível, né? Aí o resultado, o Murilo Aguiar disse: “quem for do meu lado me acompanhe até a praça”, hoje a Praça da Estação; aí menino, ficou pouca gente lá no palanque do Alfredo Coelho, pouca gente; a multidãozona acompanhou o Murilo Aguiar. Começou a partida política dele desde esse tempo. Aí o Murilo Aguiar disse: “vou lançar um candidato, o Vaqueiro da Esperança, Setembrino Veras”. Ele estava lá nas Amarelas, no terreno dele lá, ele vivia mais no interior. (...) O Murilo Aguiar lançou a candidatura dele, quando foi no outro dia o Setembrino entrou aqui no carro, foi foguete, às sete horas da noite. Vaqueiro da Esperança, botaram o apelido dele, aí o Setembrino ganhou a prefeitura, aí meteu o pau no outro candidato, ajeitou a cidade, aí começou a intriga do Alfredo Coelho com o Murilo Aguiar. Foi o rompimento. 1
A briga política dos líderes partidários provocou uma divisão no cenário político de Camocim. A atitude e a frase emblemática do Sr. Murilo Aguiar, “quem for do meu lado me acompanhe até a praça” sinalizava muito mais que um rompimento político, era o nascimento de duas facções que durante logos disputariam o poder local e, em alguns momentos, se alternariam na gestão da cidade. De um lado estava o grupo político alcunhado de “Cara Preta”, sob a liderança de Murilo Aguiar, do outro, “Fundo Mole”, liderado por Alfredo Coelho".
1 Entrevista com o Sr. Orion Meneses, funcionário público aposentado, 73 anos, realizado em 04/03/2008, em sua residência, situado à Rua José Maria Veras, nº. 30, Camocim-Ceará.
Fonte: NASCIMENTO, Carlos Manuel. . A CIDADE NAS ONDAS DO RÁDIO - Memórias e Histórias dos Serviços de Alto-Falantes de Camocim. Capítulo III. Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, 2009.
Fonte Camocim pote de histórias
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