3 de maio de 2010

Maternidade de jovens demanda políticas públicas

Proteção familiar é única alternativa para mães-meninas por falha nas políticas de assistência social

Quixadá. Dos 10 aos 17 anos, não importando a classe social, a gravidez precoce invade cada vez mais os lares de Quixadá dando um susto daqueles. Conforme dados do Ministério da Saúde colhidos pela Secretaria de Saúde deste município, de 2007 a 2009 a incidência maior de gestantes se concentra na faixa etária dos 15 aos 19 anos. Foram 910 nesse período. Representam quase 20% acima dos registros no intervalo ideal para a maternidade, dos 20 aos 24 anos. Outras 57 notificações abrangem menores entre 10 e 14 anos.

Aparentemente, os números públicos oficiais não representam muito para um município com mais 80 mil habitantes. Mas para quem lida com a assistência à adolescência a situação é preocupante. Na opinião da conselheira tutelar Lucilene Xavier, conhecida como "Bamba", basta andar pelas ruas da cidade para detectar a gravidade do problema. Na maioria são meninas pobres, de pais separados, com filhos sem paternidade assumida. Como não existem programas sociais nessa área, o fardo recai geralmente sobre as avós. A miséria entre quatro paredes aumenta na cidade.

De acordo com o secretário executivo do Conselho de Saúde de Quixadá, Felipe Carvalho Silva, este município pretende elaborar neste mês seu Plano Plurianual de Saúde. Será a oportunidade para discutir, nas oficinas e análises setoriais, o considerável aumento de adolescentes assumindo a maternidade. Através do planejamento poderão definir estratégias públicas para reverter o quadro. Ele atribui o foco do problema à liberdade cada vez maior dos jovens. Na hora do sexo, as consequências não são levadas em conta.

Mas enquanto o planejamento não chega, a equipe do Centro de Referência I realiza semanalmente encontro com gestantes assistidas naquela unidade de saúde da família, incluindo as adolescentes. Segundo a médica daquele Centro, Viviane Sandres Vanderley, aproximadamente 50 futuras mães participam da atividade. Recebem atenção de fisioterapeutas e até de psicólogos. É a oportunidade para abordarem seus receios e perspectivas. Para ela é preciso intensificar as campanhas de conscientização e educação sexual. São os remédios mais eficazes para a gravidez indesejada.

Grávida de quatro meses, M.C.B., 16 anos, concorda com a médica. Ela conhece os métodos anticoncepcionais. Aprendeu na escola, mas acabou descuidando. O namorado a assumiu. Foi morar na casa dos pais dele, mas viver na casa dos outros não é nada fácil. Acabou voltando para a casa da avó, Maria Silva Sousa, 77 anos. Dependem da aposentadoria dela. Já não gostava muito de estudar. Com o início da gravidez, abandonou de vez a sala de aula. A futura mamãe confessa não saber ao certo como será o seu futuro e de sua filha.

Primeiro, a lição de moral; depois, carinho e proteção. Essa foi a reação da aposentada Eroniza de Sousa Oliveira, 71 anos, quando a neta T.S.N., hoje com 15, lhe contou que estava esperando um filho. A bisneta acaba de completar um ano. Assim como a vizinha, a mãe-menina também largou os estudos. Justifica ser período de amamentação. O leite materno é mais importante. A preocupação com a filha está em primeiro lugar. Por esse motivo só pretende voltar a estudar no próximo ano. Por enquanto confia no amparo da avó.

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