Estudo do Laboratório da Pobreza do Caen/UFC apresenta cenários que permitem especular prazo para erradicação
Se a taxa média de crescimento da renda familiar per capita dos cearenses continuar no mesmo ritmo dos anos anteriores - 1,58% de expansão ao ano entre 1995 e 2007 -, a pobreza no Estado seria extinta em 32 anos. O cálculo é do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), da Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (CAEN/UFC), divulgado na tarde de ontem. Considerando uma linha de pobreza de meio salário mínimo, em 2008 (R$ 205,00), o Ceará tinha 48% da população nessa situação , representando mais de quatro milhões de pessoas, sendo o 6º estado com o pior indicador.
"Não sabemos o que vai acontecer nos próximos 30 anos, mas se continuarmos no melhor dos mundos, ou seja, mantendo o mesmo cenário ano após ano, sem nenhuma mudança, o Ceará extinguiria a pobreza em 32 anos", afirma o coordenador do LEP, Flávio Ataliba, que conduziu o estudo ao lado do economista Carlos Alberto Manso, com a colaboração dos bolsistas Valdemar Pinho Neto e Janaína Rodrigues Feijó.
Seguindo essa tendência, chama a atenção o economista, quem levaria a melhor seria a zona rural, que teve, no mesmo período, um incremento expressivo na renda real de 5%, o que resultaria, então, em um prazo de 14 anos para tirar da condição de pobreza as pessoas que vivem naquela área do Estado.
RMF
Com relação à Região metropolitana de Fortaleza (RMF), levariam-se 100 anos, dado que o crescimento médio da renda nessa localidade, no período, foi de apenas 0,19% ao ano. Ainda conforme o documento, na zona urbana, o aumento na renda também foi muito baixo, registrando uma taxa média de 0,64% ao ano, o que se reverteria em pouco menos de 97 anos para erradicar a pobreza.
Crescimento é insuficiente
Segundo Ataliba, os resultados encontrados trazem à tona um problema que, se para sua solução for utilizado apenas o crescimento econômico do Estado, o Ceará pode, ainda, levar muito tempo para extinguir por completo sua pobreza. "Nesse aspecto, essa tendência pode ser acelerada se fossem utilizadas de forma mais efetiva políticas públicas que possam alterar o perfil distributivo de nossa sociedade", argumenta.
Para o economista, a utilização de estratégias voltadas para a geração de renda entre os mais pobres é de extrema importância, uma vez que a renda do salário vem sendo considerada como a principal responsável pela queda recente da desigualdade. "Ademais, programas de transferências de renda condicionados e aporte de ativos financeiros, como os programas de microcréditos, são também de grande valia", fala. Por fim, acrescenta o economista, a melhoria da educação e da saúde pública para os mais necessitados são fundamentais para alterar definitivamente a desigualdade de renda no Estado, apesar de seus impactos serem mais demorados.
Metodologia
Para a elaboração desses cenário, os pesquisadores utilizaram como medida um índice (Watts) que tem como propriedade permitir o cálculo do tempo médio da extinção da pobreza em uma economia, A simulação considerou apenas a expansão da renda média, não levando em conta a contribuição da desigualdade.
Dessa forma, o tempo médio de extinção da pobreza reduz à medida que a renda real cresce. Conforme as simulações, considerando todo o Estado, caso a renda real das famílias crescesse a uma taxa anual consecutiva de apenas 0,5% ao ano, levar-se-iam 97 anos e seis meses para a extinção completa da pobreza no Ceará . Por outro lado, ela seria extinta em apenas 10 anos se a renda real crescesse a 5% ao ano, o que não é razoável esperar, conclui o estudo, na medida em que seria necessário um crescimento da renda nos moldes da China, de 10%, durante 10 anos para, descontada uma taxa média de inflação a 5% ao ano, atingir a cifra real de 5%. Em termos da RMF, nessas condições, verifica-se que nessa área comparativamente ao Estado, a pobreza seria reduzida em 88% desse tempo.
Comportamento semelhante pode ser observado também na zona urbana. Já na zona rural, o tempo de extinção seria bem mais expressivo. Caso a renda real evoluísse nessa região a uma taxa de 0,5% ao ano, levar-se-ia quase 140 anos para a erradicação da pobreza. Na verdade, isso revela um quadro de pobreza crônica na área rural do Ceará.
ANCHIETA DANTAS JR.
REPÓRTER
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