24 de abril de 2010

Bispo belga pede renúncia


Roger Vangheluwe, que confessou ter abusado de um menor, é o quarto sacerdote afastado esta semana

Roma. O papa Bento XVI aceitou ontem a renúncia do bispo Roger Vangheluwe, 73 anos, que admitiu ter abusado sexualmente de um menino por um longo período quando estava no comando da diocese de Bruges, na Bélgica.
Bispo há 25 anos, ele era o religioso há mais tempo no cargo na Bélgica. A renúncia de ontem, no entanto, tem uma grande diferença: nos casos anteriores, os bispos renunciaram acusados de tentar encobrir casos de pedofilia na Igreja, não por terem eles mesmos cometido os abusos contra as crianças.
A demissão de Vangheluwe foi anunciada pelo departamento de imprensa do Vaticano e confirma a nova linha do Papa de aplicar a "tolerância zero" frente à pedofilia.
É o quarto afastamento da semana. Na última quinta-feira, o prelado da Irlanda, James Moriarty, acusado de acobertar casos de pedofilia, e o bispo alemão Walter Mixa, que admitiu ter cometido violência física contra crianças, renunciaram. Na terça-feira, o Papa nomeou novo arcebispo de Miami, ao substituir o monsenhor John Favalora, que pediu para se aposentar seis meses antes do previsto. Ele também era acusado de acobertar abusos contra menores.

Pedofilia na Bélgica
"Quando eu ainda era padre e durante um período quando me tornei bispo, abusei sexualmente de um jovem que fazia parte de minha equipe", afirmou Vangheluwe. "Eu me arrependo profundamente do que fiz e apresento minhas mais sinceras desculpas à vítima, a sua família, à comunidade católica e à sociedade em geral", acrescentou.
"A vítima ainda está marcada pelo que aconteceu. Ao longo dessas décadas, eu repetidamente reconheci minha culpa a ele e a sua família, e pedi por perdão. Mas isso não trouxe paz a ele, assim como não trouxe paz para mim", completou o ex-bispo belga.
Roger Vangheluwe nasceu na cidade de Roeselare e foi ordenado padre em Bruges aos 26 anos. Ele foi indicado como bispo da cidade histórica em 1984, aos 48 anos, cargo que manteve por 25 anos até sua renúncia. Ele deveria se aposentar no próximo ano.
O abuso ocorreu há mais de 20 anos, e não há detalhes sobre qual seria a idade do menino na época. O bispo belga renunciou após uma pessoa próxima à vítima ter reclamado à Igreja. A Igreja belga, no entanto, afirma que está investigando cerca de 20 outros casos de denúncias de abuso sexual.
A renúncia do bispo belga foi aceita com base em uma norma canônica que se emprega em casos excepcionais, o artigo 401, parágrafo 2, do Código de Direito Canônico. A norma foi aplicada em pelo menos seis ocasiões no último mês e autoriza a aposentadoria por "doença" ou por "outras razões graves", sem especificar quais.
"O Papa começa a fazer limpeza e resulta mais rigoroso do que se esperava", afirmou o vaticanista Bruno Bartoloni. "Também toma medidas exemplares contra os responsáveis de ter encoberto os casos", acrescentou o especialista.
"Com estas medidas, Bento XVI demonstra que põe em andamento a operação limpeza, uma batalha moral e espiritual que sente profundamente. A anunciada queda de cabeças começa a se cumprir", comentou, por sua vez, o também vaticanista Marco Politi.
A nova fase de "limpeza" interna havia sido anunciada em 20 de março pelo papa na Carta Pastoral dirigida aos católicos irlandeses. Nela não só manifesta a "vergonha" e os "arrependimentos" de toda a Igreja frente ao escândalo de pedofilia, senão que anuncia que os sacerdotes culpados de abusos sexuais responderão "perante Deus" e ante a Justiça. "Deve-se admitir que foram cometidos erros de avaliação e que houve falhas de governo", escreveu o papa.

Culpado
"Eu me arrependo profundamente do que fiz e apresento minhas mais sinceras desculpas à vítima"
Roger Vangheluwe, Ex-bispo da Bélgica

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