30 de março de 2010

O último lance


O Brasil perdeu ontem Armando Nogueira, um dos jornalistas mais importantes do País. Um gênio da crônica com estilo sóbrio, mas carregado de emoção

A crônica está de luto. Gênero genui1namente brasileiro, ela sempre reuniu um grande time de jornalistas religando duas pontes - a literatura e o jornalismo. Desde o século XIX, a crônica, com seu tom quase confessional, pontifica nos nossos jornais. Na manhã de ontem, o Brasil perdeu um de seus maiores jornalistas e cronistas. Armando Nogueira faleceu aos 83 anos, vítima de câncer no cérebro. Sua passagem pelo jornalismo brasileiro foi das mais importantes. Juntamente com Walter Clark e José Bonifácio Sobrinho, criou o telejornal de maior sucesso da tevê brasileira: o Jornal Nacional, cuja história está intimamente ligada à de Armando, como registraram o próprio Walter Clark, em "Campeões de Audiência", e Mário Sérgio Conti em "Notícias do Planalto".
Mas, talvez, o mais importante não tenha sido sua trajetória como diretor de jornalismo da Globo. Mas sim o olhar poético que Nogueira lançou sobre sua maior paixão: o futebol. Como Nelson Rodrigues, outro dos nossos maiores cronistas-ensaístas, Nogueira tinha um estilo sóbrio, mas carregado de emoção. Emoção de quem carrega no sangue a alegria e a dor do torcedor. O grito e o clamor da multidão. Nogueira foi cronista da paixão maior do brasileiro.
Nasceu em Xapuri, no Acre. Aos 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro. Cursou a faculdade de Direito. Em 1950, época de grandes mudanças no jornalismo brasileiro (lead, copidesque, pirâmide invertida), começou a trabalhar em jornal. Primeiro, no "Diário Carioca"; depois nas revistas "O Cruzeiro" e "Manchete".
Seu texto, como o de Nelson Rodrigues, jamais se coadunou com os dos "idiotas da objetividade". Era livre, criativo, repleto de licenças poéticas. Emoção que jorrava dos estádios, principalmente em época da Copa do Mundo. Perdendo ou ganhando, o Brasil tinha no texto de Nogueira beleza e originalidade. Nogueira era um obsessivo pela palavra exata, pela descrição precisa. As palavras, para Nogueira, deveriam ser escritas com suprema responsabilidade.
Trabalhando em vários suportes - tanto o jornal impresso como a televisão e os livros -, Armando Nogueira estava sempre em busca de um lance que consumasse uma frase definitiva. "Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola". Ou sobre Didi: "de chute traiçoeiro e oblíquo como o olhar de Capitu".Ou ainda, quando escreveu uma espécie de oração-poema para Maradona: "Amar a Deus sobre todas as coisas / amar a bola entre todas as coisas / amar o passe / amar o drible / Amar o gol/ a Maradona".
Em suas crônicas, o autor libertou a mente e o coração de todos nós. Reinventou o futebol com o olhar do artista. Sua área sempre foi o mundo fugaz da bola. Fugaz, mas mágico. Mundo de vitórias e derrotas, mas também lúdico. Aliás, numa de suas inúmeras entrevistas, ele citava esse traço do caráter do brasileiro. "O universo do futebol tem muito de lúdico. E o brasileiro é um ser lúdico. E eu entrei no futebol pela porta da fantasia".
Ainda na mesma entrevista, no lançamento do livro "Bola de Cristal", fez uma profecia: "Se me mandassem embora da Globo a única coisa que saberia fazer seria escrever sobre futebol. E faria com muito gosto".
De fato, depois de uma crise no Departamento de Jornalismo da Globo, Nogueira deixou a emissora. Mas jamais deixou o futebol. Participava de programas, dava a sua opinião, escrevia... Crônicas ou ensaios (no ensaio, o escritor coloca-se no texto por inteiro) que ficam agora para a história. Como as "Chuteiras Imortais", de Nelson Rodrigues. Ao correr da sua pena, foram registrados momentos mágicos do futebol brasileiro e mundial. Do esporte das multidões. E a multidão sempre se afeiçoou à pena mágica e poética de Nogueira. Ele decifrava, através de seu belo estilo, com frases de efeito, raiva, dor ou alegria, os momentos que marcaram nosso futebol, estádios, jogadores e torcidas. Sem Nogueira, certamente, a Copa do Mundo deste ano não será a mesma.



JOSÉ ANDERSON SANDES
EDITOR DO CADERNO 3 dn

Nenhum comentário: