10 de janeiro de 2010

Crime avança para o Interior

O crime organizado no Brasil está migrando dos grandes centros urbanos para o interior e instalando um moderno cangaço no país. A conclusão é do mestre em sociologia e professor da Universidade de Brasília, Antônio Flávio Testa.
Segundo ele, quatro são os principais fatores a fazer com que os bandidos deixem os grandes centros urbanos e migrem para as cidades do interior do país, a profissionalização dos criminosos no Brasil; a fragilidade e até mesmo a ausência do Estado nos Municípios do interior; o crescimento econômico do Interior e, por último, a corrupção instalada nas três esferas de poder, Legislativo, Executivo e Judiciário, tanto no âmbito municipal, como Estadual e Federal.

Negócio
Autor de um estudo sobre a migração da criminalidade no Brasil e o "Novo Cangaço", Flávio Testa afirma que o crime organizado no interior hoje é "um super negócio. Um dos mais lucrativos para a criminalidade".
O professor dá como exemplo o assalto às instituições financeiras do Município de Pedra Branca (crime ocorreu na tarde da última terça-feira, quando uma quadrilha atacou as agências do Banco do Brasil e do Bradesco, depois de sitiar litaralmente a cidade de Pedra Branca, a 361 quilômetros de Fortaleza).
"Um assalto deste é extremamente lucrativo. E com os ladrões, todos nós já sabemos, sobra muito pouco do dinheiro. O assalto ao Banco Central de Fortaleza (ocorrido em agosto de 2005 e que rendeu para a quadrilha cerca de R$ 164,6 milhões em notas de 50 reais) foi um grande exemplo de como o dinheiro é repartido com a rede de corrupção dentro das instituições públicas".
Segundo Flávio Testa o último mapa da violência no País, elaborado pelo Ministério da Justiça, aponta o crescimento da interiorização da criminalidade em todos os Estados, não apenas nos Nordestinos.
"Os criminosos procuram hoje os melhores pontos comerciais, as fronteiras agrícolas, onde os municípios têm dinheiro, o que não significa que a população deixou de ser pobre. Na maioria dos casos houve apenas o aumento da concentração da renda, que fica depositada nas agências bancárias, principal alvo das quadrilhas que usam armas de grande poder de fogo".
Sobre a profissionalização do crime, não só no interior, mas em todo o país, o professor Flávio Testa aponta que este é o principal fator para o retorno do cangaço. "Os bandidos usam armas terceirizadas. Os assaltos são bem planejados, por pessoas que são de outras regiões. Eles estão profissionalizando a ação geograficamente. A cadeia de corrupção para a distribuição dos recursos é bem montada", avalia Testa.
O professor explica que o número da corrupção policial e judicial do Brasil nunca foi divulgado. "A ausência de prevenção, de operações. A ausência dos policiais no momento dos crimes. A não ação do Estado na ponta revela que a impunidade será fácil no final".

Guerrilha
De acordo com o sociólogo, a profissionalização da criminalidade no Brasil começa nos anos 60, quando presos políticos eram misturados nas prisões, aos criminosos comuns, dando a eles o "know how" de guerrilha para praticar suas ações.
"A ação de mercado começa realmente na década de 90. O crime está cada dia mais profissional, mais organizado, enquanto o Estado vem perdendo em logística. O Estado está despreparado, mas a repressão nos grandes centros, apesar de pequena, tem auxiliado no ressurgimento do cangaço".
Sobre os armamentos utilizados por estas quadrilhas, Flávio Testa afirma que eles só são possíveis de chegar aos municípios alvo porque a corrupção fez com que eles passassem direto pelas fiscalizações nas estradas nas fronteiras entre Estados e Municípios.
De acordo com o último mapa da violência divulgado pelo governo, o Brasil o ocupa a quarta colocação entre os mais violentos dos 84 países pesquisados. A média é de 27 assassinatos por cada cem mil habitantes. As regiões mais violentas estavam situadas no Pará, Mato Grosso, Rondônia e no sertão nordestino, mais precisamente nos Estados de Pernambuco, Bahia, Paraíba e Alagoas.

Investigação
As polícias Civil, Federal e Militar continuam realizando investigações em torno do que aconteceu na tarde da última terça-feira na cidade de Pedra Branca. Os criminosos agiram de forma planejada e violenta, chegando a permanecer na cidade por cerca de quase uma hora, certos de que não seriam incomodados, pois havia apenas dois policiais naquele Município e o reforço das cidades mais próximas iriam demorar a aparecer.
Causou surpresa para a Polícia o tipo de armamento que os assaltantes usaram em Pedra Branca. Todos empunhavam armas de grosso calibre e que são de uso exclusivo das Forças Armadas e das Polícias, como os fuzis de marca Imbel, de calibre 7,62 milímetros.

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