O esquema na Praia de Iracema envolve taxistas, turistas e adolescentes que moram na periferia de Fortaleza.
"Os que sobravam encostados no balcão ali permaneciam nos trabalhos em meio ao ar parado. Não se ouve tiros não há estardalhaço, bicho-gente, quero que se dane", já diz Marcelo Falcão do Rappa. Rápidos, silenciosos e constantes, assim são os crimes de exploração sexual que acontecem diariamente em pontos turísticos, como Avenida Beira- Mar e Praia de Iracema.
A circulação de meninas, anônimas, drogadas ou não, de 14 e 15 anos, em boates, táxis, bares e motéis passa aos olhos de qualquer pessoa, transeuntes, policiais, turistas, baristas, sem a ninguém comover. Descrito no artigo 244 do Estatuto da Criança e do Adolescente, o crime prevê pena de quatro a dez anos de reclusão a quem o cometer.
Na noite de terça-feira, o jornal recebeu denúncia de que meninas menores de idade estariam sendo exploradas sexualmente na Avenida Beira- Mar, Praia de Iracema e no cruzamento entre a Rua Paula Barros e Avenida Abolição.
A reportagem tentou fazer a denúncia ao Disque 100, às 21horas de ontem. No entanto, ouviu-se durante dez minutos uma gravação informando que ramais estariam ocupados. Só no dia seguinte, às 16 h40 conseguimos registrar a denúncia, ou seja, 17 horas depois. A atendente deu o número do protocolo e disse que somente após 15 dias retornássemos a ligação para acompanhar o caso.
A inoperância do Disque 100 e de outros órgãos de enfrentamento a exploração sexual já havia sido denunciada pelo jornal, em reportagem publicada no dia 27 de setembro último.
Na noite da última terça-feira, a reportagem chegou às 22 horas a Praia de Iracema, onde haviam turistas circulando, em grupos de quatro a cinco homens estrangeiros. Dois policiais, que estavam em frente à Igreja de São Pedro, deixaram o local às 22h30. Passados dois minutos, um táxi chegou com as meninas. Outras começam a se aproximar e levaram alguns minutos trocando cédulas, conversando, até começarem as saídas e retorno para o mesmo local.
Quem trabalha ou vive na vizinhança conhece todos os personagens e as rotinas diárias. "Aquele taxista é o cafetão, elas entregam parte do dinheiro do programa para eles. A maioria das meninas é de bairro, os taxistas começam a ´namorar´ com elas, prometem proteção, levam para as boates e aos poucos elas estão envolvidas na prostituição", conta J.B*.
A equipe de reportagem abordou uma menina que ao se ao se aproximar do carro, já foi anunciando que "fazia tudo, por R$ 15 reais". Magra, com algumas marcas do rosto e pescoço, ela, apressada, negociou o programa. Em uma lanchonete tomamos suco e ela confirmou a idade, 14 anos, fumava crack e não tinha documento.
"Lá em Messejana, entro nos motéis sem identidade. Vamo logo, cês tão demorando muito, preciso fazer R$ 50 hoje para pagar uma dívida (sic)". Ao respondermos que não haveria programa, a menina pediu: "Me deixem em Santa Maria, sabem onde é?". Ela não sabia explicar onde morava, mas disse que tinha vindo de Souza (PB).
fonte DN
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