14 de junho de 2009

Os sujeitos da fome

A barriga que dói sedenta de fome e dignidade das milhares de “Marias” e “Josés” que “farrapeiam” pelas ruas da cidade, seguem vencidas e presas a um tênue sôpro de vida. Nesse contexto, os “nossos sujeitos da fome” “cozinham” , diariamente, o pouco tempo que lhes restam... Tendo, apenas, como companhia o sono, o choro e a indiferença...Muito mais que uma necessidade biológica ou uma consequencia de fatores climáticos como a seca e as inudações, a fome é um problema sócio-econômico grave responsável pela morte de milhares de pessoas em todo o mundo.De acordo com pesquisas realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2004, cerca de 72 milhões de pessoas (39,8%) estão vulneráveis à fome em maior ou menor grau. Vale ressaltar que mais da metade (52%) da população afetada pela fome vive no Nordeste, e que o Maranhão é o Estado com maior percentual de lares com esse problema (18%).Prova de existênciaCom o objetivo de investigar os possíveis impactos da falta de alimentação durante a infância, e as diferentes estratégias de sobrevivência psíquica produzidas pela criança para agenciar uma experiência desta ordem; a professora doutora Karla Patrícia Martins, em conjunto com um grupo de psicólogas e alunas do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), desenvolveu a pesquisa “Infância e privação: a fome e a vontade de viver”. O estudo conta com a parceria do Instituto de Prevenção à Desnutrição (IPREDE), organização não-governamental, que há vinte e três anos intervém no campo das práticas e dos cuidados com crianças em sério estado de subnutrição.Para a professora, a ideia de estudar a fome surgiu ainda em 2000, durante a elaboração de sua tese de doutorado, quando estudava as narrativas produzidas no sertão e a melancolia, articulando-as com os trabalhos de Freud sobre a construção do psiquismo. “Elegi a fome enquanto paradigma da dor psíquica aguda, aquela que nos remete à nossa condição de origem: a do desamparo primordial. A fome, levada à fronteira da dor sem palavras, expressão máxima do grito humano, colocaria o sujeito no limite da sua condição humana”, explica.Na pesquisa, o grupo tentou identificar as múltiplas incidências da fome sobre a relação da criança com o brincar e os efeitos sobre a linguagem.“Encontramos grandes desafios e posso afirmar que só foi possível realizá-la com a parceria do IPREDE que, ao partilhar o interesse pelo tema, nos disponibilizou os seus arquivos, as suas instalações para os encontros com os pais e as crianças e o transporte da instituição para as visitas domiliciares”.GarapaFonte de inspiração para filmes e livros, a fome é tema de discussão do documentário Garapa de José Padilha. Segundo Karla, o filme convoca os nossos sentidos a pensar na complexidade de respostas agenciadas pelas pessoaspara responder a experiência da fome. “Podemos ler algumas das críticas ao Garapa como testemunhos da recusa ao mal-estar diante da dor e da precariedade, em uma sociedade, onde o feio, o bruto, o vazio, devem ser calados”, frisa.Embora haja políticas de combate a fome, a professora faz uma ressalva: “Percebemos que as políticas que se afirmam apenas pela distribuição do alimento correm o risco de fixar o sujeito na condição daquele que espera. Não significa dizer que os programas devem deixar de existir, mas apontar que apenas a doação não soluciona o problema. Sem dúvida, precisam considerar as implicações subjetivas e seus efeitos ”,finaliza ela.
ANA CECÍLIA SOARES Repórter

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